Um mundo a parte

Eu não preciso pensar em muito tempo atrás, para relembrar o modo que eu pensava a respeito das pessoas com defíciência.  Não sei se porque na escola que eu estudei não recebia estudantes assim ou porque a maioria dos locais não são adaptados para cadeira de rodas ou cegos (por isso a dificuldade de eles frequentarem os mais diversos lugares), mas eu simplesmente nunca via, ou melhor, dificilmente via algum cadeirante ou alguma pessoa com deficiência, seja ela qual fosse.

Quando eu via, ficava olhando fixamente, porque era tão difícil encontrar pessoas assim, e eu ficava alí observando, mas sem pensar nada, sem formular alguma questão, apenas observava. Eu pensando isso agora, em observar sem pensar, hoje eu acho uma tarefa tão complicada! Não consigo observar algo sem pensar a respeito, usar meus botões e formular uma opinião sobre a minha observação, seja ela certa ou errada, mas sempre penso. Diferente daquele tempo ao qual eu estava me referindo. Enfim, e quando eu observava, meus pais costumavam dizer que não era para eu olhar, porque tanta gente já ficava olhando, e não era legal fazer o mesmo.

Bom, eu não achava que estava fazendo nada demais! Mas eu aprendi que deveria “ignorar”. Não olhar não significa isso, mas para mim na idade que eu tinha, uns 10, 11 anos, eu compreendi dessa forma e a partir daí passei a ignorar, fingir que não via, mas não isso não significa tratar aquilo com naturalidade! Absolutamente! Quando temos um preconceito, isso significa que somos ignorantes, e não conhecemos bem seja lá o que for, então assim, formulamos nosso (pré)conceito e vivemos nossa vida! Simples assim!

Pois bem, olhando para trás, consigo ver perfeitamente a minha vida ausente de pessoas com deficiência participando dela, como se eu vivesse em um mundo a parte dessas pessoas, e hoje eu penso o quanto isso é surreal. Mesmo trabalhando nessa área, e as pessoas mais próximas de mim saberem que eu trabalho nessa área, muitas delas ainda tem a visão que eu tinha à mais de uma década! E mais surreal ainda é pensar a que maioria das pessoas também pensa isso, porque sempre que eu falo sobre  o meu trabalho, as pessoas se espantam e fazem uma expressão que eu entendo assim: “Nossa, que interessante você querer essa área! Como você consegue?” Não estou dizendo que é exatamente isso que me falam, é só a impressão que eu sinto.  E é engraçado e contraditório. Algumas pensam que é um trabalho muito sacrificante, doloroso ver “aquelas pessoas” que “sofrem tanto”….. Lógico que tem algumas que olham para mim e dizem “Que massa! queria ver como é esse trabalho, conta aí mais…” e aí quer saber como é que funciona, se eu gosto, se são pessoas legais etc.

Mas a grande maioria acha que é um trabalho árduo ter que lidar com pessoas com deficiência, como se eu tivesse que carregá-las no colo e levar léguas elas nas minhas costas! Exagerei. A verdade é que trabalhar com essas pessoas é como trabalhar com qualquer outra pessoa. É como se a gente olhasse para Stephen Hawking e só visse a deficiência, diante da genialidade dele! O cara PODE! Infelizmente o que acontece com nós, do mundo dos países “em desenvolvimento” é que não temos nada (eu generalizo mesmo) acessível para essas pessoas entrarem nas nossas vidas como qualquer coisa pessoa sem deficiência pode ter acesso aos cinemas, shoppings, clubes, restaurantes, hotéis, praia(!), rua, escola etc etc etc…! Mas elas são pessoas, que tem alma, que tem fé, opinião, que conversa, come, bebe, dança, ama, sofre, tudo que uma pessoas sem deficiência gosta de fazer! É lógico que existem pessoas com comprometimento maior, mas as risadas que damos, os amigos que temos, a família, o lazer, isso são coisas prazerosas a qualquer ser humano.

Então é importante que tenhamos bem fresquinho na nossa mente, que quando lidamos com gente, estamos lidando com sentimentos, com tudo que envolve uma pessoa, e não somente com um corpo, que por alguma motivo está faltando um braço ou uma perna, ou as duas pernas ou os olhos, assim como tem gente que falta juízo, falta educação, falta tolerância, paciência. Uma falta física pode atrapalhar a rotina que estamos habituados, mas uma falta de educação, tolerância ou paciência, afeta a rotina de muito mais gente, além de poder comprometer a rotina de outros e não somente a sua.

E só para concluir, devo dar a informação de que eles não vivem em um mundo a parte do nosso, só aqui em na nossa terrinha quente de Fortaleza tem, hoje, em torno de 400 mil deficientes. Já no Estado, esse número chega a cerca de um milhão e meio. (fonte: http://www.jangadeiroonline.com.br/fortaleza/taxis-inclusivos-comecam-a-operar-partir-desta-terca-feira/)

Abram a cabeça, minha gente, gente é gente como a gente!

 

Camila


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